Belregard: Entre a Cruz e a Espada

Reflexões Narrativas - Moralidade Seletiva?
Sobre a Corrupção e os Degenerados

Vamos refletir…

No texto referente aos Degenerados, tratamos eles como monstros. Eles são, falando francamente, pessoas que foram contaminadas pelo mal que existe no mundo. Podem ser seres que enlouqueceram, ou que foram corrompidos completamente pela Sombra. Dentro da lógica de uma pessoa que vive no mundo de Belregard. o Degenerado desdenha do Corpus Dei, do corpo que o Criador deu ao homem mortal, além de ser uma ofensa ao culto do Puro Leoric, que prega o tempero entre corpo e mente para atingir o divino, preservando a forma física como um presente do Pai. Dessa forma, é fácil entender que o Degenerado não merece qualquer sinal de pena ou empatia, eles são coisas, monstros, sombras distorcidas do que foram outrora.

A nossa situação no jogo é incomum. Quando o grupo de jogo entrou na caverna dos Degenerados e encontrou Ítalo, percebeu que, apesar de ter atraído a criança do vilarejo com seu canto, não o fez nessa intenção. Pior ainda, a criança em questão era feliz na companhia dos Degenerados, brincando em suas cavernas, maravilhada com os cogumelos luminosos. Assim, diante de tamanha "humanidade" no monstro, o grupo não agiu de forma hostil, eles negociaram, oferecendo suas armas para conseguir a criança de volta e um guia, o próprio Ítalo, até a saída. Foi feito.

Próximo do fim, já podendo ver a passagem, alguns membros do grupo refletiram… Eventualmente aquele Degenerado cantaria novamente. Ele atrairia outra criança, que poderia não ter tanta sorte. O que fariam então? Esperar e novamente descer para o resgate? Ou acabar com aquele mal? Optaram pela segunra escolha. Ali mesmo, na caverna apertada e mal iluminada, dois membros do grupo agarraram o pobre anão deformado e numa luta suja, em meio a terra e ao suor imundo do desespero que exalava pelos corpos, conseguiram degolar a paródia de ser humano. Não foi uma luta gloriosa contra uma besta irracional, ou um combate heróico contra o vilão terrível que devorava crianças. Foi um abate covarde que deixou um gosto agridoce na boca.

O que fazer? Belregard trabalha com essa moralidade. Nós temos caminhos de corrupção, quando cada personagem se aproxima do Ímpio que lhe guarda, cada vez mais sendo engolfado pela Sombra na medida em que se rende aos pecados. Dentro da mentalidade do mundo, eles não fizeram o errado, mas mesmo os personagens sentiram a sujeira do assassinato entre seus dedos. Eles devem tentar a corrupção? Eles devem ter a moralidade colocada na balança? Me ajudem a decidir. 

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Confissão de Pietro
Sessão 01 - Buscando reconhecimento

[Este relato se refere ao ocorrido na sessão 01]

- Eu nunca me confessei antes, senhor Henry. Então, se quebrar algum protocolo, espero que me perdoe.

Nossa caminhada até ao forte foi precedida de mal agouro, com aves de rapina nos escoltando pela savana, ainda assim decidi acreditar que aquilo não significava nada. Sabe, lembro que quando mais jovem eu não era supersticioso, mas hoje já não posso dizer o mesmo.

Ainda assim meus temores pareciam infundados quando fomos bem recebidos – algo difícil fora dessas terras onde a guerra já tomou conta de tudo. Sequer esperava por comida e um teto para dormir antes de provar alguma serventia aqui, por isso quando o barão nos pediu que fizéssemos – e eu sabia que pediria – me senti realmente interessado não apenas em mostrar meu valor, mas em ajudar.

E não tardou até que Ullr nos revelasse um problema da vila. E como ignorar uma criança retirada de seus pais quando eu também fui uma? Para mim não restavam duvidas. Para mim aquilo era mais do que provar valor – era algo que um homem de bom coração não poderia ignorar e eu sou um homem de bom coração padra, tento ser…

Agora que penso com mais calma, lembro como passar pela neblina me trouxe uma sensação de paz. Era atraente e confortável e naquele momento me imaginei como uma das crianças perdidas ali e entendi porque elas entrariam tão fundo nesse bosque sem medo. A passagem pela arvore no entanto, parecia muito mais incomoda em meu intimo e talvez se não fosse o torpor da neblina eu teria percebido o quanto aquela passagem parecia a boca de uma criatura querendo nos devorar.

Mas descemos, descemos e descemos. Já esteve na escuridão padre? Me perdoe se estiver blasfemando, mas a cada momento em me sentia descendo na própria alcova profana. E eu senti raiva padre. Uma raiva antiga e primitiva. Uma raiva de mim pelas minhas fraquezas. Uma raiva pelo que fiz no passado, motivado pelo mesmo sentimento. Raiva de nosso Lord que morreu nos deixando sem um senhor. Raiva do mundo por ser como é. Mas resisti padre, resisti para estar aqui agora, do contrario, não estaria e talvez a criança também não. Mas resistir foi difícil e admito que em parte o que me ajudou foi a voz de Italo.

Sim, eu me sentei a mesa do degenerado e minha intenção ali era acabar rapidamente com tudo, nem que precisasse matar também sua família – mas quando ele cantou sua voz me acalmou, fez dormir a fera dentro de mim. E eu pude perceber que  – novamente me perdoe se eu estiver blasfemando – Italo era tão humano quanto poderia ser. Mais civilizado do que muitos que conheci. E sendo verdade suas palavras sobre nunca ter tocado e feito mal a nenhuma criança, seria também menos criminoso do que muitos homens que andam pelas ruas. E foi por isso que aceitei deixar minha espada em troca da criança.

Ainda assim eu sabia que sua voz era algo poderoso e profano, algo que não deveria existir nesse mundo – e na verdade a julgar por onde estávamos, não existia mesmo. E hoje espero que esse tenha sido o real motivo pelo qual não excitei quando Argus decidiu que Italo não deveria viver.

Pois sei que ele cantaria novamente, sei que outra criança seria tirada de seus pais. Mas também sei que eu tirei o pai daquelas crianças em baixo da terra. E espero que o criador possa me perdoar, padre…

 

 

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Da Conversa entre Família - Argus e o Colar de sua Mãe
Sessão 01 - Buscando reconhecimento

[Este relato se refere ao ocorrido na sessão 01]

- Mãe… hoje foi um dia difícil, mas não deveria! Tudo estava ótimo.

Chegamos ao forte e foi fácil.

A indecisão do barão pareceu-me fraqueza de início, porém, após nos encontrarmos, senti que há muito nele e decidi não julgá-lo; existem ali muitos motivos, creio agora.

Falar com um barão foi fácil.

Precisamos mostrar nossa utilidade – sempre precisamos – e logo vi uma boa oportunidade de prová-la, através de um caso trazido por Ullr… Qual julgo tolo em excesso. Crianças desaparecidas… Sempre elas.

Mãe, tomar a decisão de entrar na floresta foi fácil…

Ainda lembro-me quando nos deparamos com uma barreira de neblina, mãe… Lembro da sensação de acolhimento ao atravessá-la. Lembro do chamado confortável  que emitia o buraco onde entramos. Depois da torpe sensação inicial, o conforto e acolhimento azedavam em nojo no meu interior. E inveja, mãe…  Tudo aqui, tudo, um pouco da Sombra que, por ela, fora sacrificada e não pude fazer nada, mãe. Seria simples se entregar e inveja sentia dos que podiam… Eu tenho um dever e não posso…

Mas fora fácil suportar. Fácil… Mas a inveja estava lá…

Mãe, também recordei do menino… O menino que eu tanto judiava… Ele tinha um pai e seu pai não era um assassino. Tinha uma mãe e sua mãe era viva. Havia casa, carinho, família… inveja sentia disto. Inveja, sempre ela. Me senti mal ao lembrar; ele se tornara alguém ruim por minha culpa e isso me fazia sentir como um instrumento da Sombra. Isso me dá ódio!

(E Argus apertou com força a corrente de contas que já fora de sua mãe)

Mas ainda assim, passei. Me pareceu possível e quando olho para trás, sobrevivi. Foi fácil!

Encontrar a criança foi fácil. Encontrar os degenerados foi fácil – apesar da incredulidade em dados momentos ferir meu raciocínio. Fugir foi fácil! Mas matá-lo… Digo, Ítalo, o degenerado, isso foi… Foi difícil. Enquanto o agarrava e sua garganta era cortada o sentia debatendo… Ele queria tanto viver. Talvez, em sua mente débil, sequer soubesse o motivo de estar morrendo. Fiz porque tinha de ser feito. Fiz porque faltou fibra nos demais – não em Pietro e agradeço por isso mesmo sem poder dizer – para sujar as mãos. Mas, sabe? Me senti, novamente, como um instrumento de algo ruim… Mãe, é possível dar-se contra as trevas fazendo algo tão… Triste?

Isso foi difícil, mãe…

Seria bom simplesmente se render. Deixar ser e acontecer… Confortável. Ainda assim, infelizmente não posso. Não posso. Não depois de vê-la sangrar.

O resto, após, fora somente resto. Borrões. Não estava mais lá. Alguém, creio, tomara a dianteira de nosso grupo e, estúpido, de avançar por dentro da mata em pleno breu e, claro, fomos atacados por… Não sei dizer, mas posso arriscar ser algo muito palpável e crível em comparação ao que experimentei antes. Uma fera, talvez.

… Perder os sentidos foi fácil… E bom…

A criança está salva. O barão, por fim, nos olha melhor. Eu… Bom, eu… Não sei. Perco um pouco da fé em meus companheiros. Eles não possuem o que é necessário para se fazer o que é necessário. São como crianças. Suas soluções não são soluções, são paliativos. Essas terras não precisam de paliativos, precisam de soluções. Talvez, um dia, alguém tenha deixado passar coisas e coisas, detalhes e detalhes, tenha tido medo e deixara passar um único alfinete que se tornara, depois, a adaga qual tirara sua vida, mãe…

Sei como este mundo funciona… Sei de nossa derrota… Sei quem triunfou e triunfa, dia após dia e como um animal acuado, vou enfrentar. Não haverá alfinetes. Sem paliativos. Sei o que é minha vida e… E ao depender de mim, não haverá nenhum outro menino para viver desgraça semelhante.

(Valac se aproximava, então guardou a corrente de contas que sua mãe usava nas orações e ergueu-se. Todo sinal de franca tristeza desaparecia para, no lugar, a expressão severa e afiada, padrão, e fora ter com o companheiro)

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Das Anotações de Valac
Sessão 01 - Buscando Reconhecimento

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[Este relato se refere ao ocorrido na sessão 01]

   Chegamos ao forte. Teresia recebeu nossa mula e nos deu direções. Fomos para a taverna, consegui obter algumas informações com Ana. Ao que parece o barão do lugar, Tiberius, está relutante em dar apoio a quaisquer dos interessados no conflito. Para mim, fica claro que o apoio deve ser dado à Anastasia. Me pergunto se na hesitação do barão existe somente o desejo pelo bem estar de seu povo… Não posso deixar de imaginar coisas piores, mas preciso tentar desta vez.

   Amanhã falaremos com o barão.

-

   Falamos com o barão. Precisamos provar nosso valor, é claro.

-

   Ouvimos boatos  sobre crianças desaparecendo, indo em direção à floresta. Decidimos checar.  Nela, encontramos uma barreira de neblina espessa, definitivamente algo sobrenatural, assim como o estranho  sentimento de bem-estar ao adentrar nela. Achamos uma árvore com uma passagem convidativa (uma descida), entramos, e eu soube imediatamente: era um ventre negro. Ao descer, fui tomado por pensamentos insanos. Memórias. Um gosto peculiar na boca, uma fome diferente… Meu tutor… Não gosto de me lembrar desta parte.   

   Encontramos degenerados. Encontramos um banquete. Encontramos a criança. O degenerado – Ítalo – quis nossas armas em troca dela. Não dei a minha. Alguns companheiros deixaram as suas, a troca foi feita, e Ítalo concordou em nos guiar de volta. Os mesmos companheiros decidiram matar Ítalo, na esperança de que cessem os desaparecimentos, pois é o canto de Ítalo que atrai os pequenos. Um canto fascinante. E ele precisa cantar. Mas eu sinto que a coisa que devora as crianças não vai parar tão fácil… A meus companheiros talvez falte experiência com o profano.

  Uma enorme criatura apareceu, mas eu corri para longe com a criança. Era a prioridade, afinal. Voltei apenas para buscar Pietro e Argus, que ficaram desacordados com o ataque.  

   Voltamos ao forte, a criança está bem (imagino até quando) e agora vamos relatar tudo. Provar nosso valor.

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Sessão 01 - Buscando Reconhecimento
Da Chegada ao Forte e a Busca pela Criança

Segue um resumo do acontecido na sessão de jogo. Sem buscar pro dramaticidade, estes tópicos servem de orientação para que os jogadores construam os seus próprios relatos do que seus personagens experimentaram. 

- O grupo chega ao forte, depois de vagar pelas Terras Acidentadas.

- Sua chegada não é problemática, são bem recebidos por Teresia e por Ana, que explica um pouco da situação atual do forte, da balança de poder que está se desequilibrando. 

- Para pagar por sua estadia, o grupo presta alguns serviços, como de ferraria, carpintaria, apotecária, caça e outros.

- Na manhã seguinte da chegada conseguem falar com barão, que se mostra reservado, mostrando que eles precisam provar seu valor.

- Através de boatos, ouvem sobre o desaparecimento de uma criança, que supostamente caminhou na direção do bosque sul a noite. Decididos a resolver esse mistério como forma de chamar a atenção para sua utlidade, o grupo segue para o bosque. 

- No bosque, depois de caminhar por algum tempo, percebem que este se torna mais fechado e uma estranha bruma toma conta de seu interior, quase como uma barreira separando o mundo mundano do terror. 

- Pela neblina, encontram uma grande árvore seca com uma passagem entre suas raízes. Nesta passagem estava presa uma boneca de pano, denunciando a presença de uma criança ali. 

- Descendo, com ajuda de tochas, o grupo se encontra em desespero pela escuridão e claustrofobia local. 

- Rapidamente se torna evidente a presença de seres degenerados lá dentro e numa descida que revela cavernas antigas, escavadas e construídas com motivos religiosos, algo com um anexo subterrâneo de um antigo templo. 

- No último andar, antes de descerem pela caverna, cada um experimenta um ato cometido por si mesmo no passado, relacionado ao seu próprio pecado. É como uma descida ao inferno e lá, onde corre um rio de fogo, encontram com o degenerado que pegou a criança. 

- Ítalo e sua família, os degenerados, os recebem para um banquete. Ele explica que a criança atendeu ao chamado dele com uma canção, que ele precisa cantar de vez em quando. Ele não planeja fazer mal ao menino, mas quer algo em troca para deixa-lo ir, alguns membros do grupo deixam seu valioso aço. 

- No caminho de volta, com a criança e com Ítalo de guia, o grupo decide matar o degenerado, afinal ele acabaria cantando novamente, atraindo outro inocente. 

- De volta ao bosque, em uma direção desconhecida, o grupo é ataco por uma besta territorialista, um gorila, que o deixa em completo desespero pela noite. Só com muito custo a coisa é afastada. 

- De volta ao forte, o grupo começa a galgar um caminho de reconhecimento, na medida em que descobrem outros problemasn as redondezas, que devem ser resolvidos. 

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